um encontro sonhado a passo e materializado na distância de dois passos a galope.
a passo é esse andamento natural da relação entre a marca the-morais e a artista alice dote.
antes mesmo de se verem onde estão, caminham ao alcance da vista mútua ao longo de cerca de
uma década, acompanhando mudanças de direção, velocidade e comprimento de passada. a sincronia
no ritmo de suas rotas era certeira e esperada — faz-se, finalmente, o tempo.
esboçaram esse momento em outros momentos de cio. no último agosto, the-morais chegou e alice
havia justo acabado um vidro de tinta e um bloco de papel. os desenhos haviam acontecido em gestos
rápidos: líquido deslizando por uma superfície deitada, vultos e silhuetas se insinuando sobre a mesa.
um após o outro. deve ser isso o galope.
essas imagens acontecem, há anos, no seu trabalho, impondo-se em diferentes linguagens: desenho,
pintura, gravura, mural. deixa que aconteçam fora do entendimento. the-morais chega e os desenhos,
esses últimos, parecem estar esperando por eles, que os recebem com a força do recém-criado.
e, com eles, a passo, como na andadura natural da égua, maturam e se desdobram. cada criação de um
lado impulsiona uma criação do outro lado.
utilizando a técnica de reprodução gráfica a laser no metal banhado a ouro, the-morais desenvolve uma
série de brincos, broche e pingente que revelam em seus volumes fragmentos de corpo, silhueta, rosto,
mulher, cavalo, égua, e todo o espaço de desentendimento entre eles. os desenhos, antes no papel,
nessas novas superfícies também são finalizados com nanquim — material também usado pela artista — e
verniz de joalheria.
as criações dessa coleção trazem, para além dos desenhos, o olhar afiado de the-morais sobre a
singularidade da obra e fragmentos da vida da artista alice dote. da releitura de um colar de pérolas
de sua mãe, ao vermelho constante aqui nos nós em fio encerado que separam as contas de um colar; dos
cristais de quartzo, às correntarias e fitas de seda pura que enlaçam o corpo em colares e pulseiras.
dessas criações, a criação segue: agora, para a tela e a tinta a óleo. como uma imagem puxa outra, um
passo se segue ao outro, descobrem mais aproximações entre o que criam. percebe como a caixa que
guarda as peças possui justo as mesmas dimensões dessa tela, uma telinha que cabe na mão como um
acessório? logo a tela se torna trinta telas, pois um acaso assim não pode ser ignorado, aliás, um
acaso assim é um como um sinal, certamente um sopro, uma pernada.
a coleção se torna uma mostra, uma mostração dessas pegadas, elevações e batidas. as pequenas telas
a óleo se multiplicam como mínimos fragmentos dessa pesquisa e desse encontro. nelas, os motivos
equestre e do nu, marcantes na história da pintura, aqui envolvem mulher e éguas e cabelos e crinas e
quadris e cavalos e cavalgadas e montarias.
a passo, sonhamos deslocar o centro de gravidade em qualquer direção.
fortaleza, 21 de novembro de 2024
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